Danilo tinha saído de casa as 23h, a meia noite começava seu rolê de hoje, agora fumava um cigarro em frente a empresa de remédios.
_ Eae morcego, só morcegando ai, vai trabalhar não?
Danilo hoje estava vestido todo de preto, sua máscara de um sorriso apareceu e um aperto de mão completou o cumprimento dos dois amigos para começarem a madrugada.
Enquanto entravam pela portaria, os dois viram o Juninho chegando, uma lágrima solitária já chegava no queixo, enquanto ele enxugava as outras.
_ Suave monstro? - Danilo perguntou.
_ Osh, claro irmão, sempre. Bora? - Juninho ali atuou mais que o Wagner Moura em Agente Secreto.
_ É isso, sabe que tamo junto né?
Ao entrarem no depósito, encontraram mais 20 atores, a maioria interpretava um sorriso cansado, outros estavam de olhos abertos, mas com olheiras que quase alcançavam as bochechas e casais se encontravam e se tratavam como simples colegas, quase nem se falavam, mas quando ela saía do depósito, ele ia atrás.
Lucas, o primeiro que cumprimentou Danilo enquanto fumava, agora olhava de um lado pro outro procurando alguém. Achou, mas fingiu que nem viu. Era a Carla, que hoje chegara vestindo um body e shorts, claramente não era seu primeiro role da noite. Lucas a esperou sair do depósito, a chamou e perguntou:
_ Eai?
_ Deu positivo - ela respondeu com um sorriso constrangido.
Lucas também sorriu, mas logo sua expressão se tornou preocupada.
_ Seu marido não viu o teste né?
_ Não, mas não tenho como continuar mentindo por muito tempo.
_ Você não vai precisar, vamos dar um jeito. Vou largar ela também, vamos ficar juntos.
Ela parecia acreditar, embora uma tristeza margeava seu rosto.
A madrugada foi passando, o suor ja escorria pelo rosto, o body ja dava lugar ao uniforme de EPI, a demanda aumentava a cada dia. Danilo mal podia esperar por um momento para fumar, mas não esperava que a discussão do dia anterior o alcançasse novamente tão de repente.
_ Eai seu vacilão, não ia vir falar comigo não? - uma voz esganiçada o chamou.
Quando Danilo se virou, viu Murilo, um homem branco, baixo e musculoso o encarando com olhar intimidador, digno de Oscar.
_ Já disse que não falei nada pro chefe - respondeu Danilo - se você esqueceu que tinha câmera na hora de roubar aquela caixa de Zolpidem, não posso fazer nada.
_ Você foi o único que estava na hora, o único que viu. Se eu for demitido, lembra que sei onde você trabalha todos os dias.
O sangue subiu, o rosto de Danilo enrubesceu.
_ Está me ameaçando? - tentou manter a voz baixa, mas soou mais grossa e impostada.
_ Ta loco de falar assim comigo? - Murilo começou andar rápido em direção de Danilo, armando o punho e fazendo questão que o fumante visse.
Então Danilo percebeu. Murilo ja tinha sua justa causa, estava gravado, não tinha mais o que fazer. Mas ele ainda podia levar Danilo junto, era preciso apenas um tapa.
Ele então lembrou da sua baixinha que o esperava em casa, lembrou da viagem que estava planejando com ela, do jantar da noite anterior e do que rolou depois.
Não valia a pena atuar agora, fazendo papel de um homem defendendo sua honra. Nem a pior crítica da audiência tinha importância quando ele colocou a situação em perspectiva.
Era apenas um palco, muitas vezes infantojuvenil, cheio de trabalhadores em jornada dupla, a princípio tinham que ser apenas embaladores de remédios, mas também precisavam ser atores, e agora ele precisava interpretar o papel de quem não se importava.
Se virou, ouviu uma risada e seguiu seu role, que ainda duraria muitas noites.
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