Élon tinha acordado de um sonho. Que sonho estranho, era dele mesmo se levantando da cama para estudar. Mas ele já tinha feito isso, na verdade estava cochilando no ônibus, a caminho da escola. Porém de repente, o motorista vira para os passageiros e diz desesperado:
_ O semáforo está azul, não me ensinaram isso, só me ensinaram o que fazer quando ele está verde, vermelho ou amarelo.
Que sonho estranho para se ter. Élon na verdade estava na aula de história e, no meio da entediante explicação do professor sobre alianças de guerra, havia sido embalado pelo mais doce carinho do sono. Aprumando-se na cadeira, viu que um colega começara a questionar o professor sobre a aula, porém a um apertar de botão do professor num painel sobre sua mesa, a voz do aluno emudeceu. Constrangido, o professor tentou se justificar:
_ Me desculpe, mas por ordem da direção, não será mais permitido a um funcionário da escola escutar a voz de um aluno.
Diante de terrível absurdo, todos na sala soaram altos canhões de guerra que, injustamente, miravam as mães do professor e da direção, porém tudo que se ouvia era o som do ar passando rapidamente pela janela enquanto a escola despencava pelo silêncio.
Que sonho estranho, Élon estava na verdade debruçado sobre sua mesa no escritório de contabilidade que trabalhava. Estava exausto, pois quanto mais crescia sua pilha de papéis para analisar, maior crescia sua vontade de desistir de lutar pela vida que queria. Mas ele se lembrou daquele sorriso que dava sentido a tudo e continuou a analisar cada papel, vendo neles sentimentos tão diferentes traduzidos pela estranha linguagem da matemática. Em alguns se via desespero, em outros ambição, outros sacrifícios, mas nunca paz. Porém, era incrível como quanto mais ele trabalhava, mais a pilha crescia, como se quisesse o prender ali. Até que uma hora seu chefe, sempre insatisfeito, chegou rispidamente:
_Ainda não acabou? Trabalhe mais rápido!
_Sim, senhor.
Mas quando voltou a olhar para baixo, no lugar do papel que analisava surgiu um delicioso prato, recheado das mais diversas e coloridas maravilhas da culinária. Ele agora estava num restaurante movimentado, cercado de pessoas apressadas por todos os lados. Porém ao dar a primeira garfada na comida e aproximá-la da boca, seu chefe apareceu em pé ao seu lado com roupa de garçom:
_Ainda não acabou? Coma mais rápido!
_Sim, senhor.
Ele voltou sua atenção novamente para o prato e viu, no lugar, uma calçada. Estava em pé andando apressado numa rua movimentada, atrasado para algo q não sabia o que era, quando seu chefe passou por ele com roupas de um pedestre normal:
_Ande mais rápido!
_Sim, senhor.
Ao voltar, porém, sua atenção para a rua, se viu num banheiro olhando para um espelho. E no espelho estava seu chefe vestido como o próprio Élon:
_Viva mais rápido!
_Sim, senhor.
Que sonho estranho, Élon estava acordando na poltrona de um avião, sentindo sobre sua mão um calor que era mais doce e feliz do que tudo o que já sentira na vida. Ao olhar para o lado viu a origem do calor, aquele sorriso que tinha vindo a sua mente no sonho:
_Finalmente, nossa tão esperada lua de mel, amor.
_Sim, princesa - foi tudo o que Élon conseguiu responder em meio a lentidão do tempo que sentia pela felicidade. O avião foi seguindo e quando o piloto anunciou a chegada do destino, sentiu-se uma grande turbulência e o avião começou a cair. Mas havia algo errado, ele estava caindo para cima, em direção às estrelas.
Que sonho estranho, Élon foi despertado por seu amigo:
_Dormindo na sua própria premiação, Élon?
Ele então foi chamado ao palco, sob um enxame de aplausos para receber o prêmio de Engenheiro do Ano:
_Dedico este prêmio a todos os meus outros sonhos. Porque sem eles, este não existiria.
Élon acordou. Estava na verdade sentado na varanda de sua casa, ao lado de sua esposa. Tinha pego no sono depois do almoço, e agora acordava com a visão de seus netos, como pequenas estralas, brincando no céu verde do quintal. Virou então para sua amada e disse:
_Sabe, Sorriso, uma vez tive um sonho que um motorista via azul entre as cores de um semáforo.
_Acho que o motorista da sua vida sempre viu os meus olhos no seu caminho – Disse ela sorrindo.
Élon riu, nunca tinha pensado assim. Então disse:
_ Que sonho estranho para se ter, esse tal sonho de viver!
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