Romance toma como ponto de partida a empatia humana para fazer uma breve análise sobre a atual relação entre redes sociais e a sociedade.
O Clique de um Bilhão de Dólares, escrito por Filipe Vilicic, conta a história do brasileiro Michel "Mike" Krieger que foi tentar a vida no Vale do Silício e acabou por cofundar o Instagram. A obra passa também pela vida de várias pessoas que tiveram papel na criação do aplicativo, dentre eles o americano Kevin Systrom, o outro fundador.
O autor começa o livro focado na história inspiradora desse empreendedor brasileiro de sucesso. Porém, quando se aproxima o fim da narrativa, ele percebe a necessidade de fazer algumas análises críticas sobre a invenção de seu protagonista. Essa necessidade percebida no meio do caminho conversa com a história da própria rede, que conforme ia crescendo percebia seu real impacto no mundo, não apenas um álbum virtual, mas uma nova forma de comunicação.
As críticas aparecem principalmente quando o Facebook começa entrar mais ativamente na história e fica claro como o autor procurar insentar o Instagram ao máximo que pode. Porém, faz o necessário: apresenta um panorama, conciente da possível datação que terá por estar falando da líquida indústria digital, sobre os efeitos dessas novas empresas bilionárias sobre a vida das pessoas.
Entre os cenários apresentados, vale destacar dois: o terremoto que houve no Japão em 2011 e a experiência das emoções feita pelo Facebook alguns anos atrás. Sobre o Japão, é levantada a questão: em cenários extremos, o quanto dar voz a todos que possuem as redes pode salvar vidas? Com ajuda de hastags que avisam o mundo todo onde há um pessoa correndo perigo de morte. Isso pode ser extrapolado para um quarto escuro trancado, onde um adolescente com depressão vê nas redes a única oportunidade de ser ouvido. E grita com posts, fotos e frases.
Já sobre a experiência feita pelo Facebook, levanta-se a seguinte questão: se o algoritmo dessas redes escolherem posts felizes ou tristes para os usuários verem, qual será o efeito disto? E qual é o conflito ético disso? A experiência provou que realmente os usuários postavam coisas mais felizes ou tristes de acordo com o que viam. Então estariam as redes sociais nos manipulando a todo tempo? Talvez. Mas para analisarmos isso, precisamos entender os objetivos. Eles são em maioria comerciais e podem vir a ser políticos às vezes. Do ponto de vista comercial, se por um lado é bom que as marcas saibam nossos interesses para oferecerem melhores produtos, por outro lado podemos ser induzidos pelos posts que vemos a querermos consumir determinados produtos. Já do ponto de vista político, o panorama é ainda pior: citando um trecho do livro "se as redes nos mostrarem posts positivos apenas de um candidato a presidência específico e posts negativos de outro candidato, qual seria o efeito disso?" se os líderes do Facebook quiserem que o candidato X ganhem as próximas eleições presidencias, ele ganhará? Devemos lembrar que essas redes estão em todos os países. Viveremos então daqui alguns anos um cenário onde os líderes dessas corporações definirão as lideranças mundiais?
Estamos ainda fazendo nossas próprias escolhas? Perguntas que hoje importam mais que as respostas. O livro sabe que estará datado daqui alguns anos sobre as histórias dessas pessoas e empresas, portanto escolhe ao final deixar essas questões para quem o leia. Estamos falando de coisas que acontecem literalmente na palma das nossas mãos todos os dias. O livro ganha muito nessa proximidade com o público e se usa disso para instigar, mesmo que de forma envergonhada (por estar falando de sua própria fonte temática), aos usuários pensarem sobre o que estão usando. Tem sucesso, ao nos pegar pela mão através de uma história biográfica (sente-se um evidente orgulho do autor brasileiro por seu protagonista ser seu conterrâneo) e nos levar numa reflexão sobre os produtos que mais consumimos.
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